Justiça obriga Hapvida a custear internação e cirurgia de vesícula durante carência do plano
Decisão determinou que a Hapvida autorizasse e custeasse, em 48 horas, internação hospitalar, colangiorressonância e cirurgia de colecistectomia em caso de urgência médica.
Quando um plano de saúde nega internação ou cirurgia alegando carência, a situação precisa ser analisada com muito cuidado.
Em alguns casos, a carência contratual existe, mas não pode ser usada para impedir atendimento urgente quando há risco concreto de agravamento do quadro clínico.
Eu sou Stivel Carvalho, advogado especialista em direito de saúde, e neste artigo vou explicar uma decisão judicial proferida no processo nº 0208454-32.2026.8.06.0001, pela 27ª Vara Cível da Comarca de Fortaleza, em 8 de maio de 2026, que obrigou a Hapvida Assistência Médica LTDA. e o Hospital Antônio Prudente a custearem internação hospitalar, exames e cirurgia de vesícula indicados para uma beneficiária do plano.
A ideia aqui é mostrar, de forma simples, por que a Justiça entendeu que a negativa do plano não poderia prevalecer diante de um quadro considerado urgente.
O que aconteceu no caso analisado pela Justiça
A beneficiária do plano procurou atendimento médico de urgência após apresentar dor epigástrica intensa e crônica.
Depois da realização de exames, foi diagnosticada com calculose da vesícula biliar, com presença de um cálculo de 2,0 cm no interior da vesícula.
Segundo a decisão, a equipe médica constatou a necessidade de internação clínica para investigação por colangiorressonância e posterior intervenção cirúrgica.
O ponto central é que o caso não foi tratado como uma situação comum ou meramente eletiva. A documentação médica indicava risco de complicações graves, como migração do cálculo para o ducto colédoco, obstrução, pancreatite biliar aguda e colecistite aguda.
Hapvida negou internação por carência: o que fazer?
No caso analisado, a Hapvida negou a autorização do tratamento sob o argumento de que a beneficiária ainda não havia cumprido o prazo de carência de 180 dias para internações hospitalares.
O contrato havia sido firmado em 1º de dezembro de 2025. No momento da solicitação, a paciente havia cumprido 149 dias de carência.
Ou seja, faltavam dias para completar a carência contratual de internação.
Mesmo assim, a Justiça entendeu que esse argumento não poderia ser aplicado de forma automática, porque a situação envolvia urgência médica.
Esse detalhe faz diferença.
Uma coisa é discutir um procedimento eletivo, que pode ser agendado sem risco imediato relevante. Outra coisa é tratar de um quadro clínico com indicação médica de internação, exame e cirurgia para evitar complicações graves.
Plano de saúde pode negar cirurgia urgente por carência?
A decisão explicou que, embora os contratos de plano de saúde possam prever períodos de carência, essa regra encontra limites quando o caso envolve urgência ou emergência.
No processo, a Justiça aplicou a Lei nº 9.656/1998, especialmente o artigo 12, inciso V, alínea “c”, segundo o qual o prazo máximo de carência para casos de urgência e emergência é de 24 horas após a contratação do plano.
Também foi citada a Súmula 597 do Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual é abusiva a cláusula contratual de plano de saúde que prevê carência para situações de urgência ou emergência quando ultrapassado o prazo máximo de 24 horas da contratação.
Na prática, a Justiça entendeu que a Hapvida não poderia aplicar a carência comum de 180 dias a um caso que exigia atendimento urgente.
Por que a cirurgia de vesícula foi considerada urgente?
A decisão levou em conta os documentos médicos apresentados no processo.
O diagnóstico indicava calculose da vesícula biliar, com cálculo de 2,0 cm. A documentação também apontava dor intensa, necessidade de internação, investigação por colangiorressonância e posterior cirurgia.
Além disso, a decisão mencionou alterações em exames laboratoriais, como Fosfatase Alcalina, GGT e leucocitose, elementos que reforçaram a existência de processo inflamatório ativo e risco de agravamento.
O ponto central foi este: a negativa do plano colocava a paciente em risco de complicações graves se o tratamento fosse adiado.
Por isso, a Justiça entendeu que a situação não poderia ser tratada como um procedimento simples, eletivo ou adiável.
O que a Justiça decidiu contra a Hapvida
A Justiça deferiu o pedido de tutela de urgência e determinou que a Hapvida Assistência Médica LTDA. e o Hospital Antônio Prudente, de forma solidária, autorizassem e custeassem integralmente o tratamento indicado.
A ordem judicial incluiu:
- internação hospitalar;
- colangiorressonância;
- procedimento cirúrgico de colecistectomia;
- materiais;
- medicamentos;
- suporte assistencial necessário ao restabelecimento da paciente.
A decisão fixou prazo máximo de 48 horas para cumprimento.
Também foi estabelecida multa diária de R$ 3.000,00, limitada inicialmente a R$ 30.000,00, em caso de descumprimento da ordem judicial.
Se o seu caso envolve urgência médica, negativa formal do plano ou risco de agravamento do quadro clínico, reúna a prescrição médica, a negativa apresentada pela operadora, os protocolos de atendimento, exames, laudos e comprovantes do plano.
Esses documentos podem ser decisivos para uma análise jurídica rápida e segura.
Cabe liminar contra plano de saúde que nega internação urgente?
Sim, dependendo dos documentos e da urgência demonstrada no caso concreto, pode ser possível buscar uma decisão liminar.
No processo analisado, a Justiça considerou presentes os requisitos da tutela de urgência.
A probabilidade do direito foi reconhecida a partir da legislação citada, da Súmula 597 do STJ e dos documentos médicos que indicavam a gravidade do quadro.
O perigo de dano também foi considerado evidente, porque a demora na internação, no exame e na cirurgia poderia expor a paciente a complicações severas.
Calma.
Isso não significa que toda negativa será automaticamente revertida pela Justiça.
Cada caso depende da documentação, da indicação médica, da urgência, da negativa apresentada pelo plano e do risco demonstrado nos autos.
A prescrição médica fez diferença no caso?
Sim.
A decisão destacou a importância da avaliação do médico assistente, que acompanhou diretamente a paciente e indicou a necessidade de internação, investigação e cirurgia.
Segundo a Justiça, a operadora não poderia simplesmente sobrepor uma regra administrativa de carência à gravidade clínica indicada por profissional habilitado.
Esse é um ponto muito importante em ações contra plano de saúde.
Em muitos casos, o relatório médico bem fundamentado é uma das provas mais relevantes para demonstrar a necessidade do tratamento, a urgência do caso e os riscos da demora.
Quais documentos podem ser importantes em casos parecidos
Em situações envolvendo negativa de internação, cirurgia ou exame urgente pelo plano de saúde, alguns documentos costumam ser relevantes para análise jurídica.
Entre eles:
- relatório médico detalhado;
- prescrição do procedimento, cirurgia, exame ou internação;
- exames que demonstrem a gravidade do quadro;
- negativa formal do plano de saúde;
- protocolos de atendimento;
- carteira do plano;
- comprovantes de pagamento;
- contrato ou condições do plano, quando disponíveis.
Esses documentos ajudam a entender se houve negativa indevida, se o caso envolve urgência e se há elementos suficientes para buscar uma medida judicial.
Ainda assim, a análise precisa ser individual.
Não basta existir uma negativa. É necessário verificar o motivo apresentado pelo plano, o conteúdo da indicação médica, o risco ao paciente e os fundamentos aplicáveis ao caso.
Por que essa decisão é importante para outros pacientes
Essa decisão é importante porque mostra que a carência contratual não pode ser usada de forma automática para negar atendimento quando há urgência médica demonstrada.
Na prática, muitos pacientes recebem negativas com base em cláusulas contratuais, prazos internos ou critérios administrativos.
O problema é que, em determinadas situações, a demora pode gerar risco real à saúde.
A decisão reforça que, quando há urgência, documentação médica consistente e risco de agravamento, o plano de saúde pode ser obrigado judicialmente a custear o tratamento, mesmo que tente justificar a negativa com base na carência comum de internação.
O que fazer quando o plano de saúde nega cirurgia, exame ou internação por carência
O primeiro passo é pedir a negativa formal por escrito.
Esse documento é importante porque mostra exatamente qual foi o motivo usado pelo plano para recusar o atendimento.
Também é essencial solicitar ao médico um relatório claro, explicando o diagnóstico, o tratamento indicado, a urgência, os riscos da demora e as consequências da não realização do procedimento.
Com esses documentos, é possível avaliar se a negativa tem fundamento ou se pode ser contestada judicialmente.
Em casos urgentes, o tempo importa. Por isso, quanto mais organizada estiver a documentação, mais segura será a análise jurídica.
Teve internação, cirurgia ou exame urgente negado pelo plano de saúde?
Se você recebeu uma negativa do plano de saúde, especialmente em caso de urgência, é importante analisar o caso com cuidado.
Medicamentos de alto custo, UTI, home care, cirurgias, exames, internações, terapias para autismo, coparticipação abusiva e tratamentos negados podem exigir atuação rápida, principalmente quando há risco à saúde do paciente.
Cada situação precisa ser examinada a partir dos documentos, da negativa apresentada pelo plano, da indicação médica e da urgência do caso.
Para receber orientação jurídica em Direito de Saúde, entre em contato pelo WhatsApp clicando no botão abaixo.
MAIS PUBLICAÇÕES











